ROSAS VERMELHAS

* pintura: Paul Klee
eram moças e moços
acentuadas e exclamados,
marcadas, engravidados de tudo:
versos
e vida
e tudo o que
restava e faltava ao mundo.

eram moças e moços.
eram.
são.

hoje, cicatrizes na terra; sementes;
gestantes silenciosas de rosas vermelhas.

E DE CADA POESIA


é assim que toda vida se forma:
de extremos
e líquido;
leite
e pão.

é a vida sem forma.
forma.
e é constante.

é de lua a gestação
de cada mulher.

RELATIVO E ABSOLUTO


Mas para ele,
que é nosso,
e basta, mesmo
não sendo exato,
festejo com fé e poesia.

E ele não
cansa,
descansa,
pois finca e não
balança e clama por
nós no limite de cada verso.

Nele acredito, vida,
mesmo sem ver...

E vivo-lhe a contar,
sem mensurar,
posto que na
eternidade de
dois corpos,
amor,
sonhos
e desejo,
todo tempo é
relativo e absoluto.

O MEU

n' é feito
de ventre
nem gera.
não marca
nem libera.
não escorre
nem revela.

só circula.
ama.

SER TÃO


E todo aquele rosto era solo sertanejo:
seco,
chorado
e marcado pelo crer.

- mas a luta vingava a sede pelo ser -

Da mistura de suor,
lágrimas
e barro batido
brotariam palmas em todo anoitecer.

MINHA FLOR, NOSSO DIA


Enfeitava-me de prosa,
cantava feito bossa
e saía bem-te-visitando
entre flores,
cores
e folharia.


Todo espinho se fenecia.


Beijava a flor,
meu amor,
nosso dia.

Até Neruda o versaria.

MAR IA


Vivia de mar,
ar,

e poesia.

Não sabia se era mar,
concha,
lar
ou ventania.

- mas embarcava sempre contra a correnteza -

(e atracaria)

Todo mês sangraria.

ORQUÍDEAS E HORTÊNSIAS


Gotejo e germino.
Inspiro.
Expiro terra com cheiro de chuva.

Em folhas, escrevo.

Retalho-me.

MAR


Da terra
faço céus
das estrelas
pegada
e da letra
poesia.

Singular
pluralizo-me.

CALLE MAZA


(...)
regados
d' vinho
amor
sonhos
quadras
milongas
e mãos entrelaçadas
gardelizamo-nos.

SERTANEJA


- era sertaneja e lavadeira
parida e criada nas águas do velho chico -

Acordava ao raiar do sol;
lavava sua noite, sua tarde, seu dia;
areava até o que antevia;
(era seu vosso pão. era filha, filho, cria)
esgotada dormia; renascia.

Era assim tudo que amanhecia:
de mão,
de Oxum,
de Oxossi
e poesia.

Era luta de mulher. E ela sabia.
Era gozo feminino para todo santo dia.

À ESPERA DELA


Aprumei face nos braços do destino dela,
entregando sina
à brisa duma manhã ruidosa.

- havia terra, água e ar; faltava fogo -

Saí por aí calcando passos
sobre folhas ventadas pelo vento.

- repousaram-me sobre a areia -

Projetei-me sobre águas agitadas pelo tempo,
engenhando trilhos para felicidade auspiciada.

- enxergava-a nua e crua. era espelho n'água -

À meia voz, invoquei mãe-d'água,
requerendo sal nas vestes vestidas por mim.

- evaporariam com o tempo. sobrariam pele, sal... e ela –

Desfrutei frutas paridas
pelo verde veludo dos campos,
sossegando facho à sombra dum coqueiro-pissandó.

- o sol se pôs -

Dispensei sono nesta noite de sonho e vilania,
rogando pele às vistas d'um amor desmesurado.

- ela se compôs -

Faltaram terra, água e ar por todos os cantos;
sobraram corpos engravidados de desejo.

- fez-se fogo entre nós -

Engravetamo-nos eu, ela e a lua cheia.

- molhou-se tudo aos sóis –

Sobraram cheiro, pétalas e poucos espinhos.

(em meu peito, ela se decompôs)


Aperriado, danava a deitar vistas no mundo celestial, desenhando, com esmero, nuvens silenciadas pelo sol. Mas o dia quedou-se inerte às dezoito horas. A noite estava por vir. Despedindo-me das imaginações em forma de nuvens, desejava, agora, a cortesia duma estrela cadente. Mas passava o tempo e nada. Nada de nuvens, nada de estrela cadente. Só sonho e mais nada. Ressentido pelo desprezo celestial, restava-me o consolo do infinito troposférico. Observava detidamente cada facho de luz perdida, mensurando, com exatidão, diâmetro, comprimento e intensidade astrológicos. Media, exaustivamente, cada cisco de luminosidade espacial, tecendo, com galhardia, contas e números na ponta dos dedos. Acreditava, cegamente, que nos astros os sonhos se amoldavam, se realizavam, bastando, para tanto, encaixá-los em sua respectiva luminosidade. Mas os números me entristeciam... (era o destino de toda conta popular). Sonhos eram inexatos; estrelas e números, não. Sonhos precisavam de estrelas; estrelas e números, não. E a lua, enquanto isso, solidária com os pedidos carentes de estrela, enchia-se de sonhos desestrelados... (enchia, crescia, minguava, enchia). Renascia periodicamente cheia. Fazia-se cheia. Fazia-se medida de todo sonho. E todo sonho se fazia real, mesmo que espiritual, abrindo vaga para novos sonhos. Era noite de lua cheia. Era noite de realização, de lual. Era sonho lunar. E cabia a mim, pisciano que sou, sonhar, sonhar, sonhar... à espera da próxima lua cheia. Ou, quem sabe, por uma vaga na próxima constelação...

Filhas da Rua


Sorvendo
Segredos
Receios
E anseios infantis
Indagava-se ela
Face ao reluzir das estrelas:

Quem há de cadenciar minhas preces paridas pela terra?

Vinícius


Papéis,
Pincéis
E rimas de boemia.

Tinteiros de paixão,
Vida de poesia.

Nudez


Despiu-se
De versos,
Risos,
Pudores
E galhardia.

Fez-se d'um dia
Eterna poesia.

Lilás


Pediu brisa ao vento,
Atrovoou tormento
E rodopiou olhares,
Atormentando,
Num só giro de ares,
Trilhas e lares de quem por sobre si
Deitava as vistas.

Mas de nada adiantava encorajar-se
Dependurada e só.

Extasiada das facilidades
oferecidas pelo galho,
Arremessou-se
Feito fruta madura de guerra,
Semeando,
Junto às outras filhas da terra,
Sementes de orgasmo
Ao som de cirandas de orvalho.

Entoaram cores,
Imitaram flores,
Humilharam dores
E germinaram.

Julietizaram prosas
Ergueram rosas,
Alexandraram hordas,
E simonizaram.


Empunharam lágrimas.

Finalmente estava semeado
Solo fértil para novas mulheres.

Mão Dada


Sirene gritou
Poeira assentada
E o que resultou?

Mais-valia e jornada.

O mês relutou
A sina apagada
E o que lhe pagou?

Foi sobra do nada.

Patrão pressionou
O não de mão dada
E o que lhe sobrou?

(respirou fundo)

- Luta e mais nada.

Aporia


Olhar,
Esplendor
E riso sem pudor.

Confluência entre paixão e amor.

Com Ela

Viveria de vento
Entregando-me
Aos ventos de feição
E revirando segredos
Com o sopro das mãos.

Viveria de vento
Descompassando ventos ponteiros
Escravos da hora
E ventanejando sem medo
Da seca e da chuva.

Viveria, enfim,
Demasiadamente de vento
Repousando querência
Na rosa-dos-ventos
E namorando ao pôr-do-sol
No crepúsculo de cada dia.
*Foto por Liana Lisboa